SINPARC – História e representatividade

Em maio, o SINPARC (Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas) passou pelo processo de eleição de sua diretoria para o período de trabalho dos próximos três anos. A atual diretoria foi reeleita e, com ânimo renovado, o presidente Rômulo Duque fala ao Guia Vá ao Teatro sobre o que representa o SINPARC no cenário cultural do Estado, suas principais ações em favor das artes cênicas e de novos projetos para o período que se inicia. Com a palavra, o presidente Sr. Rômulo Duque.

RÔMULO DUQUE

Guia Vá ao Teatro – Rômulo Duque, para abrir nosso bate-papo, gostaria que falasse o que significa para a atual gestão este novo crédito recebido dos produtores para o período dos próximos três anos na administração do SINPARC?

Rômulo Duque - Este novo mandato é resultado de um trabalho que vem sendo feito com o segmento ao longo dos anos. É uma responsabilidade ainda maior e chega no momento em que os ânimos estão renovados, com vários projetos que começam a sair do papel e se transformar em realidade. Há muito ainda a ser feito para que o teatro de Belo Horizonte e de Minas Gerais, como um todo, seja tratado com a dignidade que merece.

Guia – E não é por falta de trabalho dos produtores e artistas...

Rômulo Duque – Pelo contrário. Nós temos aqui uma efervescência cultural como poucos lugares deste país, mas nem isso é suficiente para garantir trabalho decente para todos o ano inteiro. Temos praticamente os melhores em tudo. Somente para enumerar alguns, temos o melhor grupo de dança do país; o melhor grupo de teatro de rua do país; o maior projeto de popularização do teatro e da dança; o mais importante Festival de Teatro Internacional; o maior grupo de Teatro de Bonecos. Apesar disto e, independente do sucesso, estamos sempre começando tudo do zero.

Guia – E apesar da resistência de muitos, este movimento acaba desestimulando empreendedores, artistas e ações na área.

Rômulo Duque – É triste dizer que muitos estão quase deixando Belo Horizonte. Este é o caso do importante projeto ECUM, do qual recebo a notícia que está sendo “levado” para São Paulo. (E ninguém faz passeata). Por essas e outras eu digo que estimular o empreendedorismo cultural em Minas é um desafio que me motiva muito. É um grande trabalho a ser feito.

Guia – Neste caso são necessários mais que movimentos isolados de projetos.  É preciso uma verdadeira ação política no sentido de preservar e manter esses projetos tão importantes para a cidade, que estimulam a produção cênica e garantem o trabalho para o setor.

Rômulo Duque – Preservar e fomentar estes projeto é uma ação que cabe ao setor público. São estas ações que estabelecem uma política pública para a cultura. Alguns valores não podem ser interrompidos. Não pode se conceber que, por exemplo, o Grupo Galpão “seja levado” para outro estado por falta de apoio. É uma ação do governo e de todos nós: valorizar e apoiar nossos valores. Nós artistas e produtores temos nossa cota de responsabilidade na questão da cultura da cidade. O SINPARC, desde a sua fundação, age politicamente junto aos órgãos e setores do governo ligados às políticas culturais, além de desenvolver ações concretas voltadas para a melhoria das condições da produção na cidade, refletindo em um teatro cujo maior objetivo seja o público.

Guia – Muita gente não conhece o SINPARC enquanto força política, pois o que aparece para o público são as ações diretas como a Campanha de Popularização Teatro & Dança, ou a manutenção do Posto de Venda de ingressos com descontos durante o ano inteiro. Em que áreas da política cultural o SINPARC esteve ou está presente?

Rômulo Duque – São várias as frentes. O SINPARC é uma entidade consolidada de representação da classe artística produtora e por isto está envolvida e tem voz ativa nas diversas rodas de ação das políticas culturais. Estivemos à frente da luta nacional quando as Leis de Incentivo à Cultura estiveram ameaçadas de serem extintas quando da reforma tributária. Como vitória, garantimos este mecanismo como parte da Constituição, ou seja, o que antes era Lei, hoje é um direito constitucional; participamos ativamente da elaboração das Leis de Incentivo à Cultura de  Belo Horizonte e Minas Gerais. Outra importante ação foi junto à Secretaria de Estado de Cultura pela realização do Fórum Técnico de Cultura para aprimorarmos a Lei de Incentivo do Estado. Destacando que este encontro na Assembleia foi o maior encontro de trabalhadores, produtores e entidades de cultura do Estado; participamos ativamente da criação do Fundo Estadual de Cultura; Fomos para rua em defesa da Secretaria Municipal de Cultura que foi transformada em Fundação. Apontávamos que o governo estava equivocado e a nossa posição se confirma hoje. Temos uma Fundação fragilizada politicamente que por pouco não nos privou de um dos mais importantes projetos do país: o FIT. E evitar que isso acontecesse foi outra ação política do SINPARC com diversos segmentos da cidade.

Guia – E este histórico de ações faz com que o SINPARC seja reconhecido pelos governos e entidades como representante da classe e esteja, por vezes, junto com eles na mesa de trabalho.

Rômulo Duque – Para nós esta é a comprovação de que o trabalho que realizamos é importante para toda a produção artística. No final do ano passado o SINPARC participou, a convite do Governo do Estado, do grupo de elaboração do novo Conselho Estadual de Cultura, que hoje é lei e vai publicar seu decreto garantindo a todos os segmentos da cultura ampla participação.

Guia – Uma importante conquista para o setor.

Rômulo Duque – O Conselho Estadual de Cultura vai ser um instrumento de elaboração de politicas públicas fundamental para o setor. Muito ainda precisa ser feito e está sendo feito. Este ano reconquistamos junto à Fundação Clóvis Salgado uma antiga luta que é a ocupação do teatro público por editais. A nova direção da F.C.S já abriu o edital para ocupação do Teatro João Ceschiatti no primeiro semestre e prepara o do segundo semestre. Irá lançar também o edital para o Prêmio Estimulo que contemplará produções de Belo Horizonte e do interior do Estado, com recursos para montagem e circulação.

Guia – Além de todo este trabalho político o SINPARC desenvolve projetos para o dia-a-dia da produção. Podemos citar o Posto de Venda de ingressos.

Rômulo Duque – Sim. Mantemos o Posto de Venda funcionando o ano inteiro, com preços especiais para o público e outras ações.

Guia –Com relação ao Posto de Venda, já sabemos que temos novidade este mês.

Rômulo Duque – Uma boa notícia para todos: firmamos uma parceria com a FNAC localizada no BH Shopping, que pretende também desenvolver ações em prol das artes cênicas. Assim, a partir do dia 01 de junho, a FNAC terá também um Posto de Venda do SINPARC. Com isto, levamos a facilidade da venda de ingressos com preços promocionais para uma nova região, um ponto nobre e estratégico para nós produtores.

Guia – E para os internautas? Temos alguma novidade?

Rômulo Duque – Para quem prefere a comodidade de comprar seus ingressos pelo computador, estamos lançando o novo site do SINPARC voltado para a informação da cena cultural. Ele virá com outras informações e facilidades próprias da internet, como vídeos dos espetáculos, sinopses mais detalhadas e a venda online dos ingressos. Para isto, investimos em aprimorar o nosso sistema de venda de ingressos. Este site chega com novo nome. Vai se chamar INGRESSOS BH e pretende se firmar como um ponto de venda de ingressos online dos espetáculos de Belo Horizonte. É nosso objetivo oferecer a todos os teatros da cidade o nosso sistema completo, uma vez que a maioria dos teatros de Belo Horizonte não possui venda informatizada e também não aceita cartões de crédito. Desta forma, o SINPARC pretende atuar junto aos teatros para oferecer facilidades para o público. Dentre essas facilidades, podemos anunciar que acabamos de fechar um convênio que possibilitará que o público adquira ingressos nos Postos de Venda utilizando DOTZ, um sistema de troca de crédito que possui mais de 500 mil clientes em Belo Horizonte. Outra informação, que atinge diretamente o produtor, é que, nos dois últimos anos, o SINPAPRC se cadastrou para receber o Vale Cultura, um projeto da Secretaria Municipal de Educação que disponibiliza mais de R$ 700.000,00 em ticketes que podem ser utilizados na compra do ingresso para o teatro.

Guia – O SINPARC então investe em facilidades e informação.

Rômulo Duque – Com certeza. E o Guia Vá ao Teatro, também mantido pelo SINPARC, continua levando a informação impressa para o público. Estamos há 3 anos mantendo este importante canal de comunicação, preenchendo o espaço do Palco BH, outro respeitável projeto que teve sua publicação interrompida por falta de patrocínio. (E ninguém fez passeata).

Guia – Podemos ver que a profissionalização do mercado também é uma preocupação do SINPARC. Existe algum projeto neste sentido dentro da nova gestão?

Rômulo Duque – Estimular o crescimento profissional e abrir oportunidades está na pauta todo o tempo. Por isto o SINPARC estimulou a transformação de produtores em empresas como forma de ampliar as possibilidades profissionais. No momento, estamos finalizando uma parceria com o SEBRAE para a realização de cursos de aprimoramento de gestão para todos os produtores de teatro de Belo Horizonte e mantivemos conversas com o Centro de Produção Técnico da Fundação Clóvis Salgado para que possamos desenvolver ações conjuntas na confecção de cenários e figurinos dos espetáculos da cidade, contato este que já se concretizou em dois trabalhos realizados.

Guia – Mudando um pouco de assunto, o que você pode adiantar ao público e à classe com relação ao Teatro Clara Nunes, fechado há tanto tempo?

Rômulo Duque – A administração do Teatro Clara Nunes também é uma das ações do SINPARC, que assumiu o espaço, impedindo que este fosse desativado. Há 3 anos foi fechado para atender ao Ministério Público na questão de obras de acessibilidade e melhorias para o público e, durante todo este período, o SINPARC cobrou dos órgãos responsáveis o retorno de suas atividades. Hoje podemos dizer que a obra completa do teatro já está aprovada pelo Governo e em breve teremos um dos melhores teatros de porte médio do Estado. E é fundamental que a obra se inicie já. Não faz mais sentido o teatro estar fechado há tanto tempo. O mesmo devemos esperar do Francisco Nunes.

Guia – Não podemos deixar de falar na Campanha de Popularização Teatro & Dança, que é um dos maiores projetos do SINPARC, além de ser o que mais movimenta os profissionais de artes cênicas e o público no Estado.

Rômulo Duque – Sem dúvida. Consolidamos nestes últimos anos a Campanha como o maior projeto de popularização das artes cênicas no país. Ampliamos o Projeto para o interior, atuando em 4 regiões do Estado. É o único projeto que abrange simultaneamente tantos lugares de Minas Gerais. E nossa participação nestas regiões tem tido papel importante. Para se ter uma ideia, a partir da nossa chegada com a Campanha a Juiz de Fora, estimulamos e ajudamos a criar a APAC/JF (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora) que hoje praticamente desenvolve o projeto na cidade e, a partir desta organização, conseguiu a criação da Lei Municipal de Cultura e participa ativamente das decisões da política cultura da cidade. Em Ipatinga, o Projeto se consolidou como um dos mais importantes momentos da produção cênica local. E o mesmo processo começa a acontecer na cidade de Governador Valadares. Além disso, o Projeto esta sendo realizado, nos últimos anos, no Barreiro, em Belo Horizonte, numa grande descentralização da produção. É um projeto que já levou mais de 5 milhões de pessoas ao teatro a preço popular. É uma ação de formação de público, que gera trabalho para milhares de profissionais e se mantem fiel aos seus objetivos desde seu início: levar ao público todos os espetáculos que foram montados no teatro e dança profissionais. Sem nenhum critério estético ou por curadoria. É levar realmente tudo. As virtudes e também os defeitos da produção cênica. E que o público escolha livremente o que quer ver e quando quer ver.

Guia – E estamos em época de Prêmio. O SINPARC também realiza uma grande premiação aos profissionais da área.

Rômulo Duque – Entendemos que uma importante forma de estimular a produção e os profissionais é reconhecer o mérito do trabalho. Assim, conseguimos consolidar o Prêmio SINPARC aos melhores do teatro e da dança de Minas Gerais unindo-nos, nos últimos oito anos, a uma das maiores empresas do país: a USIMINAS. Temos assim a única premiação do Estado que oferece, além do reconhecimento pelos trabalhos apresentados, uma premiação em dinheiro, além de viabilizar a circulação dos espetáculos vencedores para a cidade de Ipatinga.

Guia – Com certeza estas ações repercutem em todo o meio cultural do Estado e fora dele.

Rômulo Duque – Por causa dessas e de outras ações, o SINPARC foi selecionado em 2010 , por mais de 200  formadores de opinião profissionais da área de propaganda, em pesquisa realizada pela Vox Populi para o Prêmio ABAP/MG (Associação Brasileira de Agências de Publicidade de Minas Gerais), como uma da 4 entidades que mais se destacaram no setor cultural, juntamente com a CEMIG, Globo Minas e Unimed. Uma grande honra para todos nós.

Guia – Para fecharmos a entrevista, gostaria que você apontasse um dos focos de ação que será perseguido por esta nova gestão à frente do SINPARC.

Rômulo Duque – Há alguns anos, o grande homem de teatro Paula Lima dizia que o problema do teatro era cal e areia, pois faltava teatro na cidade. Hoje este problema foi superado, mas surgiu outro ainda pior: a falta de público. Este é o desafio a ser vencido. Pesquisa realizada recentemente apontou que não é o valor do ingresso o motivo que afasta as pessoas das salas de teatro. O público não vai ao teatro porque não tem o hábito de ir. Então cabe a nós, artistas e produtores, criarmos as condições para que isso ocorra. Afinal, o que fazemos (TEATRO) é para o público. Ou não?

E se preciso for VAMOS FAZER PASSEATA.

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